Indicadores da gravidez na adolescência
07/05/2008
- 17h20
 |
O país vive algo como uma 'epidemia da
gravidez' em adolescentes nas últimas décadas. Em 1990, cerca de 10% das
gestações ocorria nessa faixa etária. Em 2000, portanto apenas dez anos
depois, esse índice aumentou para 18%, ou seja, praticamente dobrou o número
de mulheres que engravidam entre os 12 e os 19 anos. |
No Brasil, o número de partos em adolescentes abaixo dos 20 anos gira em
torno de 700.000 por ano o que representa uma parcela significativa da população
nessa faixa etária.
Tanto engravidam as adolescentes de classe social mais baixa, quanto as de
classe mais alta só que o enfrentamento da situação é diferente.
No que se refere às jovens de classe social mais favorecida, infelizmente, há
poucos trabalhos sobre o assunto porque é difícil levantar dados nos
consultórios particulares que, em geral, elas freqüentam.
No entanto, sabe-se que essas contam mais com a possibilidade de interromper a
gravidez, se desejarem, e têm outros objetivos na vida o que não acontece com as
de classe social menos favorecida para as quais a gravidez pode representar uma
forma de ascensão social, já que muitas vezes seus companheiros possuem nível
socioeconômico um pouquinho melhor que o delas.
Atendimento em SP
No Hospital das Clínicas (em São Paulo-SP), as adolescentes foram questionadas a
respeito de se pensaram ou não em fazer um aborto e constataram-se que apenas
22% das grávidas cogitaram interromper a gravidez e dessas, somente 5%
efetivamente fizeram alguma coisa nesse sentido, tomaram um chá, por exemplo,
imaginando que produzisse efeito abortivo.
|
É importante mencionar, porém, que nos tem
chamado a atenção nesse atendimento o fato de nem sempre a gravidez ser
realmente indesejada. Aproximadamente 25% de nossas adolescentes planejaram
a gestação e muitas abandonaram o método contraceptivo que usavam com o
intuito declarado de engravidar. |
 |
A gravidez precoce
Existe uma série de fatores que poderiam contribuir para o aumento da incidência
de gestantes adolescentes. O baixo nível socioeconômico é um deles porque, às
vezes, a gravidez representa oportunidade de ascensão social. Além disso, a
baixa escolaridade também pesa nesse contexto. Metade das adolescentes que são
atendidas no HC já tinha interrompido os estudos antes de engravidar. Isso nos
permite pensar que se tivessem continuado a estudar e a receber estímulos
pedagógicos e culturais como acontece com as meninas de classe social mais
favorecida, talvez nem pensassem numa gestação, porque de uma forma ou outra, a
escola representa um fator de proteção para elas.
Outro fator que poderia ser pontuado é a desestruturação familiar. Notamos
nessas adolescentes grávidas certa dificuldade de relacionamento com os pais. Na
verdade, a dificuldade é maior com o pai, tanto que o grande medo é contar para
ele que estão grávidas o que retarda, em muitos casos, o início do pré-natal.
Do ponto de vista biológico, alguns autores destacam como fator importante a
menarca, ou seja, a primeira menstruação que vem ocorrendo cada vez mais
precocemente, graças talvez à melhora da alimentação ou à interferência do
clima. No início do século, na Europa desenvolvida, as meninas menstruavam em
média aos 17 anos. Hoje, a média é 12 anos e vem baixando sistematicamente o que
poderia estar relacionado com o início precoce da atividade sexual.
No entanto, se fizermos uma retrospectiva histórica, veremos que a gravidez na
adolescência não é novidade. Provavelmente muitas mulheres no até meados do
século passado se casaram cedo, engravidaram logo e, durante a gestação e o
parto, não receberam assistência médica regular.
Impacto psicológico
Porém, o papel da mulher na sociedade mudou e talvez, por isso, o fato de
engravidar mais precocemente chame tanto a atenção. Espera-se que a adolescente
estude, trabalhe e não que engravide e tenha filhos.
 |
De início, é um choque porque a
adolescente está vivendo uma fase de transição em busca da própria
identidade. Perguntas elementares como “quem sou?”, “o que estou fazendo
aqui?”, “qual vai ser meu papel neste mundo?”, ainda estão sem respostas e
ela se depara tendo de enfrentar uma gravidez que atropela seu
desenvolvimento e a obriga também a buscar sua identidade como mãe.
|
| Capa da revista americana Times, no ano
passado revela que problema não é somente brasileiro |
Isso, em grande parte dos casos, provoca maior dependência da família e
interrompe o processo de separação com os pais e destes com a adolescente. Não
sabendo exatamente quem é, se adolescente ou mãe, adota uma postura
infantilizada que atrapalha seu caminho para a profissionalização. Sabemos que
posteriormente essas jovens podem voltar a estudar ou começam a trabalhar, mas
em geral ocupam posições piores do que aquelas que não tiveram filhos nessa
idade. Portanto, as seqüelas não se limitam aos aspectos psicológicos.
Refletem-se também no campo social.
Riscos da gravidez
Do ponto de vista físico-biológico, a gravidez na adolescência é de alto risco.
A incidência de hipertensão, doença freqüente na gravidez, é cinco vezes maior
nas adolescentes que também são mais propensas a ter anemia. Muitas já estavam
anêmicas quando engravidaram e têm o problema agravado durante a gestação o que
aumenta o risco de bebês prematuros, com peso menor e a necessidade de cesáreas.
Informação
Todas sabem que se tiverem uma relação sexual sem os cuidados necessários, podem
engravidar. Dados indicam que 92% delas conhecem pelo menos um método
contraceptivo, pelo menos a camisinha elas conhecem.
Portanto, não é a desinformação que leva à gravidez na adolescência. Talvez o
pensamento mágico dos adolescentes que influencia a maneira de buscar a si
mesmos, o imediatismo e a onipotência que lhe são característicos sejam fatores
que possam justificar sua maior incidência. Não há menina que não saiba que pode
engravidar, mas todas imaginam que isso jamais irá acontecer com elas.
Fonte: Dra. Adriana Lippi Waissman - médica obstetra do
Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo, especializada em gravidez na
adolescência
Confira artigo com reportagem e doccumentário sobre o tema: